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NÃO FOI O BULLYING

Um adolescente de 14 anos, que nos últimos dias vinha sendo ridicularizado por alguns colegas, que lhe impuseram a alcunha de “fedorento”, retira da mochila uma arma .40, tomada de sua casa à revelia dos pais, e atira contra os demais estudantes da sala. Mata dois e fere outros tantos.

A cena descrita acima resume a ocorrência que chocou os brasileiros no último 20 de outubro.

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Fonte: Veja.abril.com.br

A cobertura jornalística, os relatos de pessoas próximas, os pronunciamentos da polícia e as análises de especialistas têm apresentado os fatos de forma que situa o bullying no centro da discussão.

“Precisamos conversar sobre o bullying”. “O bullying é um mal silencioso que se dá dentro das instituições escolares”. “A escola não pode fazer vistas grossas a situações como essa”. Todas estas frases foram extraídas de reportagens que tive a oportunidade de ver ou ler recentemente.

A ideia por trás desses discursos é uma só: o bullying causou a tragédia.

Oprimido pelas gozações, incapaz de expressar o problema ou de tentar resolvê-lo de outra forma, o garoto viu na arma o instrumento que faria cessar seu sofrimento.

É a respeito dessa noção de causalidade que quero refletir brevemente neste texto.

Se tenho em minhas mãos um copo de vidro, suspenso no ar, e decido larga-lo, ocorre que ele imediatamente cai ao chão. Isso não acontecerá “de vez em quando”, mas todas as vezes em que minha mão largar copos suspensos no ar.

Para tais situações, a Física, ciência que estuda esse tipo de movimento dos corpos, diz que há em vigor uma lei da natureza, irrevogável, que faz com que os objetos sejam atraídos para o centro da Terra. Isaac Newton chamou essa lei de força da gravidade, e deduziu que fosse inerente a todos os corpos com massa. Quanto maior a massa, maior a força gravitacional (ou gravidade) exercida. Einstein reviu a teoria newtoniana estabelecendo que a força gravitacional se dava por conta das dobras do espaço. Mas permanece imutável o fato de que a gravidade é uma força inexorável exercida sobre os objetos.

Assim, podemos dizer que a gravidade é a causa da queda do meu copo. É ela quem faz com que a queda aconteça. Nada mais, nada menos. E, sendo ela implacável, como lei geral, sou capaz de prever que todos os copos cairão em direção ao solo, tão logo os tenha soltado.

Podemos agora voltar ao caso do garoto de Goiânia.

Ao afirmar (explícita ou tacitamente) que o bullying supostamente sofrido por ele provocou sua trágica reação, dá-se a entender que entre o bullying e o ataque há uma relação causal (de causa-efeito), ou seja, que o bullying (causa) foi o responsável pelo ataque (efeito).

Ora, é sabido que as agressões (físicas e/ou verbais) que correspondem ao que se conhece como bullying são um problema comum nas escolas. No entanto, também é fato que reações como a do garoto de Goiânia não são vivenciadas cotidianamente.

Assim, fica claro que entre bulliying e ataque não há uma relação de causa-efeito.

Esta não é uma característica isolada da psique humana; quanto mais se estuda a Psicologia, mais se percebe que nossa vida não é regida por leis inexoráveis, como as da Física.

A compreensão da psique humana requer sensibilidade e saberes dispostos a mergulhar profundamente na complexidade em que cada vida individual se dá; pouco ou nada pode ser dito a respeito das decisões de um sujeito (de modo ainda mais impactante quando essa decisão implica fato tão dramático) sem acesso a seu “mundo interno”: seu modo de perceber a vida, sua história, seus projetos etc.

É por esse motivo que, diferentemente, por exemplo, do médico (“Por que estou com dor na perna, doutor?”. “Porque sua tíbia está fraturada”.), o profissional da Psicologia tem dificuldade em responder perguntas objetivas como “Por que sou assim?”, “Por que sempre repito esse mesmo comportamento?”.

A análise dos valores, significados e sentidos, específicos a cada vida humana, é fundamental para qualquer compreensão válida sobre nossos comportamentos e nossas emoções.

Não gostaria de assistir a tantos colegas “palpitando” a respeito do que ocorreu na última sexta-feira. Creio que o mais humano, neste contexto, é apoiar as famílias atingidas, e desejar que tenham força para superar esse terrível incidente.

Para mais informações sobre o trabalho em Psicologia, entre em contato.

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