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Crianças de peruca são engraçadas?

A gravação da cena é feita pelo algoz.

Rapaz brasileiro, branco, 21 anos.

Privilegiado: faz certo sucesso como artista, mesmo sem possuir grande domínio de sua arte. Até por isso, consegue viajar ao exterior, mesmo com o dólar a mais de R$ 4.

No mesmo vagão do trem, há uma garota branca, magra, que segura no colo um bicho de pelúcia, e usa uma peruca para esconder a ausência de cabelos e sobrancelhas (como se soube depois, devida a um tratamento contra câncer).

Aos olhos deste rapaz brasileiro, a aparência da menina parece estranha; de estranha, engraçada.

Deduzimos isso porque – começa a gravação – ele dá zoom no rosto da menina (risadas de pessoas que o acompanham podem ser ouvidas ao fundo) e pede ao espectador “mano, olha isso. Olha a menininha”.

Ele grava e pede que vejamos com nossos próprios olhos aquilo que ele e sua turma já tinham visto: uma menina feia.

Explorar a visão daquela menina diferente parece massagear-lhe o ego: é uma prova de seu sucesso. Ele, brasileiro-em-Orlando, com amigos, está saudável, e tem milhões de seguidores para assistir esta sua… piada?

Não, a piada depende da construção de uma situação. “O português entra no bar, pede uma bebida, e diz…”.

Ali, não. Ele liga a câmera, mostra a menina, e diz: “mano, olha”. Só olha. Basta olhar.

Não é uma piada. É mais parecido com alguém que posta a foto de uma placa escrita em português incorreto. É apenas ridicularização.

O prazer diante do sofrimento me parece uma das mais significativas formas de crueldade. No meu dicionário, a forma como o menino ri, se diverte, parece feliz, até, enquanto sua vítima se acabrunha, visivelmente constrangida, é sinônimo da palavra “maldade”.

É uma falha moral, na medida em que deixa vazar uma violência gratuita e visceral, irrefletida. Não civilizada. Animalesca.

Quem necessita se valer de qualquer forma de decrepitude para elevar-se a uma posição digna, já fracassou.

73364282_746184382499449_5262373752749948928_nVeio-me à lembrança a fala de uma figura histórica que admiro muito: Jesus de Nazaré.

No “Sermão da Montanha”, ele teria dito que “os humilhados serão exaltados”.

No contexto da religiosidade cristã, você pode crer que esta fala era necessária desde as origens dos tempos, ou seja, de que se trata de uma revelação divina. Assim sendo, pouco há para ser considerado, debatido ou extraído como efeito. Revelações devem ser assimiladas, aceitas e postas em prática.

Eu não consigo pensar assim.

Acredito que a fala de Jesus não re-vela uma realidade.

Ela a des-vela, ou seja, “retira o véu” que, em nossa vivência cotidiana, cobre os assuntos e nos afasta deles.

Este “véu” da realidade é formado pelos preconceitos, pelas idealizações, pelas experiências anteriores etc., enfim, tudo aquilo que acaba funcionando como anteparo entre mim e as coisas mesmas.

Ao executar esse “retirar o véu” (desvelar), algumas falas especiais, como a do nazareno, permitem que as coisas e os assuntos venham-a-ser na radicalidade de seu mostrar-se, tal como são. E este é o máximo que chegaremos próximo a algo que possa ser chamado de “verdade”.

Mas isso é outra história…

Em suma, prefiro crer que Jesus, como sábio e conhecedor de seu tempo, disse que “os humilhados serão exaltados” como resultado de uma profunda indignação.

Ao ver prosperarem tantos homens maus, às custas da violência, do abuso e da exploração de inocentes, Jesus teria sido consumido pela raiva. Inconformado, proferiu algo que fundou a existência dessa nova lei.

Descolado, depois de um dilúvio um tanto abusivo, que matou igualmente o ímpio e a pobre criança, ele, então, decidiu fazer diferente: dar a César o que é de César, e a justiça a quem é injustiçado.

É isso que deve ocorrer ao humano consciente, quando se depara com a maldade: um misto de sensação e ação, de teoria e prática, a que damos o nome de inconformismo.

Foto destacada: vejasp.abril.com.br

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