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CONHEÇA A PERSONALIDADE OBSESSIVO-COMPULSIVA

Lembra do Lineu Silva, patriarca d’A Grande Família, seriado da Rede Globo?

Ele é um grande ícone da personalidade obsessivo-compulsiva.

Na cultura pop brasileira, possivelmente o maior.

Então, fica a sugestão: a partir deste ponto do texto, se quiser um exemplo prático de algum item descrito, pense no Lineu, ok? 😉


Lineu Silva
Redeglobo.globo.com

Antes de falarmos sobre a personalidade obsessivo-compulsiva, precisamos ajustar rapidamente um conceito.

Em postagem anterior, já falamos sobre a “projeção”.

A ideia é mais ou menos a seguinte: nós, humanos, temos uma vasta dimensão de sentimentos e desejos.

Alguns, são tranquilos e inofensivos. Por exemplo, sinto saudade do cãozinho que perdi na infância (sentimento), ou estou com vontade de tomar sorvete (desejo).

Certos sentimentos e desejos, porém, são menos “ingênuos”. Sentimos e desejamos coisas absurdas e/ou proibidas. Em nossa fantasia, podemos sentir ódio por um ente muito próximo, podemos desejar a morte de alguém, podemos ter vontade de experimentar algo que é tabu para a maioria das pessoas, e assim por diante.

Entrar em contato com este lado – digamos – sombrio de nossa afetividade, pode nos fazer sentir mal, abalando a imagem que temos de nós mesmos como pessoas íntegras e corretas.

Para evitar que isso aconteça, nossa mente pode tentar nos proteger, se valendo de um “mecanismo de defesa” conhecido como projeção.

Como o nome já diz, é como se nossa mente projetasse esse conteúdo (sentimento, desejo) que julga inadequado em nós para algum ‘outro’ (outra pessoa, outra coisa), fora de nós, agindo, a partir de então, como se aquele conteúdo não fosse mais nosso.

No caso da Personalidade Obsessivo-compulsiva, o sujeito percebe em si uma desordem interna – seu mundo psíquico tem pontos caóticos, confusos e de insegurança.

Em defesa, a mente do sujeito projeta o caos para objetos fora de si. Em seguida, o sujeito passa a perseguir estes objetos no intuito de “organizá-los” ou “arrumá-los”, ou seja, salvá-los da bagunça.

Dito dessa maneira, fica fácil compreender, por exemplo, que o obsessivo-compulsivo, ao irritar-se com um quadro pendurado na parede da sala, por estar alguns milímetros fora de prumo, está de fato irritado com conteúdos de si mesmo, ali projetados.

O que é obsessivo? O que é compulsivo?

O termo obsessivo-compulsivo expressa duas dimensões: pensamentos obsessivos, comportamentos compulsivos.

Pensamentos obsessivos são recorrentes, independentemente da vontade do sujeito. Podem provocar ansiedade, irritação / nervosismo.

Comportamentos compulsivos são atos que o sujeito sente que precisa repetir inúmeras vezes.

Exemplificando: pensamentos que levam a uma sensação recorrente de sujeira e impureza fazem parte da componente obsessiva; o ato de lavar as mãos inúmeras vezes, a componente compulsiva.

Sinais da Personalidade Obsessivo-compulsiva

– Preocupação excessiva com detalhes, regras, listas, ordens, ao ponto de perder de vista a própria finalidade da tarefa

– Grande ênfase ao planejamento, e rigidez em sua execução (pouca tolerância a acontecimentos “de última hora”)

– Perfeccionismo. Rever uma tarefa mil vezes, sempre achando correções a fazer

– Dedicação excessiva ao trabalho, à responsabilidade e à produtividade, em detrimento aos amigos, hobbies e lazer

– Hiper foco em tarefas domésticas ou de higiene, repetindo ações como forma de “garantir” que tudo está organizado e limpo

– Grande importância à moral, regras, ética, valores, em detrimento dos próprios desejos

– Senso crítico excessivo (intolerância a erros), tanto em relação a si, quanto em relação aos outros

– Dificuldade de se livrar de objetos sem utilidade, mesmo sem valor sentimental, por achar que um dia poderão ser úteis

– Dificuldade de delegar tarefas e trabalhar em equipe (incapacidade de aceitar outras formas de trabalhar que não sejam a sua)

– Controle financeiro excessivo

– Dificuldade de ouvir e aceitar sugestões

– Dificuldade de expressar afetos. Valorização da lógica e do intelecto

Bem, você talvez termine de ler esta lista e pense “Ei, até que não é tão mau ser assim! Eu também gostaria de conseguir controlar melhor meus gastos, saber me planejar mais…”.

Pois é. Lembra o Lineu?

A função que ele desempenhava, de “pilar” da família, era bem sucedida exatamente porque ele possuía algumas dessas características.

Mas, convenhamos. Lineu pode ser um exemplo de alguém “funcional”, mas não “feliz”.

O apego excessivo a regras, ao trabalho, à intelectualidade e ao zelo financeiro, muitas vezes o privavam de experiências prazerosas (para chateação, inclusive, de sua família).

Mas a questão principal ainda não é essa.

As características obsessivo-compulsivas podem se manifestar em diversos níveis de intensidade.

Imagine alguém que seja 100x mais obsessivo que o Lineu…

Ora, e existe?

Sim.

Em casos mais graves, estas características podem afetar a vida do sujeito de uma maneira insuportável, trazendo grande sofrimento (é o caso do diagnóstico do Transtorno Obsessivo-Compulsivo [TOC]).

Independentemente do grau de obsessividade e/ou compulsividade, o sofrimento psíquico do sujeito e das pessoas que o cercam é o melhor “termômetro” para procurar ajuda.

Manejo clínico

A gravidade dos sintomas, e a consequente debilitação de muitas áreas da vida do paciente, devem ser critérios para a decisão do profissional de saúde.

Em casos mais graves, o acompanhamento medicamentoso é sempre recomendado, tanto para alívio dos sintomas compulsivos, quanto para diminuição dos pensamentos obsessivos, que atuam no modo de uma escada em espiral (que passa sempre no mesmo ponto, mas, a cada vez, um nível [de ansiedade] mais alto). Nestes casos, a remissão sintomática também pode ser obtida por meio de técnicas das chamadas Terapias Cognitivo Comportamentais.

As terapias fenomenológicas, humanistas, analíticas e psicodinâmicas, por outro lado, partem da premissa de que os sintomas são manifestações cujo sentido oculto deve ser buscado numa trama de significados inscrita na vida do paciente.

Deste segundo ponto de vista, podemos apontar que a dualidade obsessividade-compulsividade costuma emergir de uma percepção de si caótica, para a qual os sintomas vêm a ser uma tentativa de organização externa (projetiva).

De qualquer maneira, é importante que o profissional tenha sensibilidade para entender que estes sintomas (como qualquer mecanismo de defesa) têm uma razão de ser na dinâmica psíquica do sujeito, e não podem ser simplesmente retirados (via interpretação ou outro procedimento), sob pena de permitir que o paciente seja invadido pelo caos de que vinha tentando fugir.

A vivência da angústia (aquele caos ou terror-sem-nome sobre o qual se constroem os sintomas) é necessária. Vivendo-a na clínica, um ambiente acolhedor e “controlado”, o paciente pode re-significá-la. Mas cabe ao terapeuta compreender a intensidade que cada paciente é capaz de suportar, a cada momento.

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