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Saiba como ser feliz agora! (ou não)

Ser feliz é muito fácil. Se você não é, está falhando miseravelmente na vida.

Chego a essa conclusão depois de correr os olhos pelos “feeds” de notícias das minhas redes sociais.

Por motivos óbvios, sigo e curto as páginas de muitos profissionais da área da saúde mental. Vez e outra, abro meu smartphone e observo suas postagens de fim de ano.

Faz bem saber que tantas pessoas e empresas me desejam um 2020 cheio de paz, alegria, saúde, amor, dinheiro etc.

Mas há outra coisa que tem me chamado a atenção. Junto com as felicitações e desejos de um ano vindouro magnífico, recebo muitas dicas de como fazer com que isso aconteça, por mim mesmo.

É uma miríade de verbos no modo imperativo: seja, faça, tome, reflita, coma, pare, sinta, afaste-se, tenha, pense…  

Às vezes, sinto-me confuso em meio a tantas sugestões. Algumas parecem até contraditórias entre si, como me decidir por uma?

Por exemplo, leio um post que diz: “Afaste-se de pessoas negativas”, e já começo a pensar numa meia dúzia que merece ser mandada para o espaço; depois, porém, leio “pratique o amor ao próximo”, e me sinto egoísta por ter cogitado renunciar àquelas companhias.

Então, vejo uma mensagem de “O ano não vai ser novo se você for o mesmo”, e me encho de coragem para ser alguém diferente. Mas aí me vem “Não queira se adequar, confie em quem você é”, e paro no meio do caminho.

E vem “Não desista!”, mas depois “Às vezes, é melhor largar para sair menos machucado”.

“Não deixe escapar uma só oportunidade”, e “Relaxe mais”.

Seria interessante se entrássemos num acordo… É pra viver cada dia com “sangue nos olhos” ou é pra relaxar mais? É pra mudar ou continuar igual? Pra desistir ou insistir?

Agravaria a confusão o fato de que muitos desses ensinamentos são transmitidos na forma de frases ditas ou escritas por célebres gênios da humanidade! Digo “agravaria”, no condicional, porque, a bem da verdade, nesse ponto alguns colegas fazem certa confusão. Já vi Paulo Coelho sendo citado como Freud, Winston Churchill como Einstein e Tiririca como Oscar Wilde…

Mas, enfim.

Para não me complicar ainda mais, vou fazer o seguinte: o que der, eu faço. No mais, torço pra que nenhum tsunami venha destruir o frágil castelinho de cartas a que chamo de vida.

Viver não é só uma questão de decisão. Nem tudo depende do meu fazer e acontecer.

Essa ideia de um homem que se faz a si mesmo (o self made man, produto esperado da grande utopia do american way of life) é relativamente recente em nossa história, mas se espalhou de tal maneira que, hoje, chegamos a atribuir a entidades inefáveis (Deus, o Universo) a responsabilidade por garantir que o processo de dê com justeza. Ou seja, se você fizer a sua parte corretamente, Deus ou o Universo são avalistas para sua felicidade.

Eu tenho alguma dificuldade de me adaptar a essa realidade moderna.

Atrai-me mais o trabalho da deusa romana Fortuna, que distribuía aos humanos seus bens e situações de vida aleatoriamente, sem compromisso de merecimento.

Mas tamanho poder do mero acaso assustou o Estado e a Igreja, que tomaram providências para difundir a noção de que, se o indivíduo aspira a um ideal de vida, deve manter-se voluntariamente dentro de parâmetros de certo e errado, ou seja, de uma vida ideal. Criaram a noção de merecimento como forma de controlar pessoas, prometendo a recompensa da boa vida aos que tivessem os comportamentos convenientes.

Por isso, se buscarmos a fundo analisar a vida de um número significativo de pessoas, tentando estabelecer laços de causalidade entre o bem ou mal que fizeram na vida e seu sucesso ou bem-estar, provavelmente teremos muita dificuldade.

Estes laços não existem, a não ser em situações específicas e de alcance limitado.

Há grandes canalhas que são pessoas riquíssimas, alegres, têm filhos exemplares, dormem bem e transam muito. Há boas almas que levam uma vida de injustiça e desolação. E existem os contrários também.

Um bom caminho talvez seja perceber que não há uma vida certa, que não há receita ou fórmula, que o mesmo comportamento pode ter consequências sensacionais ou trágicas, dependendo da pessoa e de suas circunstâncias. Enfim, que a natureza da vida é de uma complexidade que o imperativo dos verbos nunca conseguiria captar. É multifatorial, é incerteza e imponderabilidade.

E talvez também seja importante que nós, profissionais da saúde mental, possamos relativizar a importância desses “mandamentos”, dicas e sugestões de valor supostamente universal, passando a exercitar mais a empatia, a compreensão do outro como outro, o mistério inalcançável da singularidade humana.

Pois – convenhamos – ao dizer a alguém cuja vida fragilizou psicologicamente “Seja forte”, não estamos sendo apenas ignorantes, mas um tanto cruéis.

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