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Saiba como é o sujeito com “Personalidade Dependente” | Da Cinderela a Game of Thrones

Possível origem

Um bom caminho para compreender a personalidade dependente é saber que ela já foi conhecida como “personalidade astênica”.

Astenia é uma palavra de origem grega que significa fraqueza, falta de vigor.

Existem algumas possibilidades teórico-clínicas de compreensão da Personalidade Dependente. Aqui, vou recorrer ao pensamento do médico e psicanalista inglês D. W. Winnicott. Deste ponto de vista – tentarei mostrar – a “fraqueza” da Personalidade Dependente reside na impossibilidade de reconhecer a própria força para enfrentar a realidade do mundo, em processo que se inicia precocemente na vida do sujeito.

Para Winnicott, no início da vida do bebê, a melhor mãe possível é a mãe SUFICIENTEMENTE BOA.

Isto significa que o bebê não precisa de alguém que tenha feito um curso de “como ser uma boa mãe”, mas apenas de um adulto maduro que o considere como sujeito, e não como objeto.

Explico melhor. Num primeiro momento, a mãe tenta satisfazer plenamente as necessidades da criança, permitindo uma ilusão de onipotência. Nesta utopia, o bebê percebe o mundo como algo que ele mesmo concebeu, com o intuito de satisfazer seus impulsos pulsionais, sem adversidades e sem diferenças. Este ambiente de confiança e acolhimento, criado pela presença física amorosa do corpo da mãe, é importante para a saúde psíquica futura do bebê.

Depois desse tempo, a mesma mãe que se deixou conduzir para permitir a seu bebê um primeiro conforto irá, então, conduzi-lo cuidadosamente ao princípio de realidade e à frustração – à lei do pai.

Assim, a mãe SUFICIENTEMENTE BOA começa correspondendo à totalidade do mundo de seu bebê, mas, aos poucos, recua frente à necessidade de apresentá-lo à realidade.

Se tudo ocorrer bem neste começo de vida, é esperado que a criança se torne independente da relação original com a mãe e se desenvolva como sujeito singular.

Porém, pode acontecer que a mãe tenha dificuldade em permitir a entrada da frustração na relação com seu bebê.

A mãe pode ter pena dele (“Tão pequenino! Tenho que fazer tudo que estiver ao meu alcance para que não sofra!”), reviver inseguranças de sua própria infância, adiar interminavelmente o desmame, criar estratégias para manter o pai e outros adultos longe da dupla etc.

A partir daí, a criança pode se desenvolver sob a crença de que a experiência de estar no mundo só é suportável com proteção e ajuda.

Privada da chance de estar em contato com seus desejos, prazeres e incômodos, a criança desenvolve, conforme o desejo da mãe, o que podemos chamar de “falso self”; neste caso, um “si mesmo” constituído pelo outro, dependente.

Como é o sujeito de Personalidade Dependente?

A pessoa de Personalidade Dependente precisa se sentir cuidada, protegida e próxima dos outros. Tem dificuldade em sentir-se autônoma. Quando está sozinha, se sente vulnerável, e se angustia.

Tende a cultivar relações com laços fortes (amizades, familiares) em busca de pessoas que possam, ao menos em sua fantasia, lhe apoiar e proteger.

Como a presença do outro é vital, em nome de um relacionamento amoroso o sujeito de Personalidade Dependente pode abdicar dos próprios sonhos e desejos. Basta-lhe que o outro fique por perto. Isso pode ser fruto de atritos, uma vez que a Personalidade Dependente vai, progressivamente, anulando a si própria.

Em alguns momentos, a pessoa pode se dar conta desta situação, mas de modo egocêntrico. Verá que o outro lhe traz sofrimento, e poderá mesmo chegar a culpá-lo, sem perceber que é ele mesmo quem faz de tudo para agradar ao outro, inclusive ir contra seus próprios valores e interesses.

A Personalidade Dependente costuma sentir muito ciúme (por não se sentir boa o suficiente para o outro) e ter constantes pensamentos / fantasias de que está sendo traída e abandonada. Essas características lhe consomem e podem agravar os atritos relacionais quando apresentadas ao outro.

O término de uma relação costuma ser trágico, pois representa uma ameaça a seu próprio ser. Sente-se como se o “chão tivesse saído de seus pés”, como se não houvesse mais motivos para viver sem a presença do outro.

Passado o luto, porém, o sujeito Dependente tende a não ficar muito tempo só, e logo procura uma nova relação.

Tem grande dificuldade em tomar decisões sozinho. Procura constantemente opiniões e conselhos das pessoas que o rodeiam. Aceita com certa facilidade a visão do outro, mesmo quando não concorda. É pouco ativo em trabalho em equipe. No ambiente profissional, tende a se submeter sem questionamento a ordens.

Sua autoestima não é boa. Quando diverge de outras pessoas, imagina que suas ideias não têm valor e devem estar, portanto, erradas.

Personagens Famosos com Personalidade Dependente

– Pink (Cartoon Pink e Cérebro)

– Charles Boyle (série Brooklin 99)

– Cinderela (conto dos Irmãos Grimm)

– Jorah Mormont (da série Game of Thrones)

Diagnóstico clínico

A título de curiosidade… O DSM IV e o CID 10 categorizam um “Transtorno da Personalidade Dependente”, que pode ser clinicamente diagnosticado na presença de 5 (cinco) ou mais dos sintomas abaixo:

1)    Dificuldade em tomar decisões sem excessivo aconselhamento e apoio dos outros;
2)    Transferência das responsabilidades para os outros na maior parte das áreas importantes da vida;
3)    Dificuldade em discordar dos outros por medo de perder suporte ou aprovação;
4)    Dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria (por falta de confiança nas suas capacidades, e não por falta de motivação ou energia);
5)    Para obter cuidado e apoio dos outros, se oferecer voluntariamente para realizar atividades que lhe são desagradáveis;
6)    Sentimento de desamparo quando sozinho, por medo exagerado de ser incapaz de cuidar de si próprio;
7)    Procura urgente por outras relações, em substituição de alguma relação íntima terminada;
8)    Preocupações irreais sobre ficar sozinho.

Manejo clínico

O acompanhamento em psicoterapia busca criar um clima inicial de segurança e acolhimento, para que o paciente se sinta compreendido e cuidado.

Neste começo, uma atitude muito abrupta por parte do terapeuta, no sentido de confrontar o paciente com suas próprias dificuldades, pode dificultar ou inviabilizar a continuidade do tratamento.

O paciente Dependente tem muito medo de enfrentar a realidade sozinho. Em sua história, ele teve motivo para acreditar que era incapaz de fazer isso. Por isso, a máxima de que “o terapeuta não fará nada pelo paciente; o paciente encontrará seu caminho sozinho” não deve ser apresentada neste momento.

É importante que o paciente sinta que há uma parceria verdadeira e autêntica entre ele o terapeuta.

O terapeuta, nesse sentido, adotará postura que permita ao paciente “regredir” ao processo psíquico da maternagem, ou seja, à relação dual com sua mãe.

Assim, o paciente pode abrir mão, progressivamente, de seu “falso self”, aos poucos apresentando seus desejos, fantasias e necessidades próprios. Então, o terapeuta pode reconhecer a singularidade do paciente enquanto sujeito.

Desvelando a si mesmo, o paciente terá a oportunidade de realizar a passagem psíquica que lhe falta: da dependência em direção à independência, da heteronomia à autonomia.

Espera-se que, nesse processo, a autoestima e autoconfiança do paciente melhorem, diminua sua autocrítica, desenvolva-se nele assertividade e proatividade, e, finalmente, que ele possa explorar e viver seus próprios interesses de vida, ciente dos recursos que possui.

Prof Rodrigo Giannangelo
CRP 06/56201-2

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