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Conheça a PERSONALIDADE NARCÍSICA – A que “acha feio o que não é espelho”

Narciso, de Caravaggio

No mito grego, Narciso é um jovem belíssimo, mas fútil e orgulhoso, a quem todos amam, mas que não ama ninguém.

Um dia, Narciso aproxima-se de um lago (a versão de Ovídio aponta que essa foi uma condenação da deusa Némesis, pela frivolidade do rapaz) e, ao ver o próprio reflexo, apaixona-se perdidamente por si mesmo, ao ponto de nunca mais conseguir sair de lá. Assim, definha e morre.

Na música ‘Sampa’, um Caetano Veloso recém-chegado da Bahia resume a estranheza que a cidade de São Paulo lhe provoca:

“É porque Narciso acha feio o que não é espelho”.

Somos todos Narcisos, em parte.

Quando olhamos para o mundo, não esperamos apenas conhecer, mas, fundamentalmente, REconhecer. Encontrar algo de “já nosso” naquilo que vemos.

Caetano olha São Paulo e nada entende. Não há, no gigantesco “Túmulo do samba”, nada de parecido com o que vivera até então. Nada é seu. Nada lhe é familiar.

Não conseguimos amar aquilo que não (re)conhecemos.

Provavelmente, você já ouviu a máxima de que “Antes de amar alguém, primeiro você precisa amar a si próprio”.

Bem, para a psicanálise, esta é uma verdade literal.

Nosso primeiro amor, na mais tenra infância, é por nós mesmos. Com pouco tempo de vida, “Sua majestade, o bebê” (como chamou Freud) aprende a obter prazer com seu próprio corpo, e crê que o mundo (em especial, a presença de seus cuidadores) é apenas uma extensão dela mesma, a contribuir para a satisfação de suas necessidades e desejos.

Assim, o bebê percebe-se “ideal”, perfeito. É a chamada plenitude narcísica.

Mas esse status de não-conflito não dura muito. Com o tempo, a criança vai percebendo que o mundo tem um estatuto próprio, e não existe apenas para servir a suas necessidades e desejos.

Essa ocasião acontece quando um “terceiro” elemento é introduzido em sua relação unívoca “eu-mundo” (onde a função de mundo, segundo Freud, costuma ser prioritariamente exercida pela mãe), e a criança passa a intuir que não é a imagem perfeita de tudo o que a mamãe espera da vida. Mamãe tem outros interesses, outras ocupações, outros amores…

Grosso modo, a partir de então, a criança aprende a deslocar uma parte importante do seu investimento libidinal para o “outro”, sempre buscando / fantasiando um retorno àquela perfeição narcísica primária.

Anekids.blogspot

No entanto, se a realidade externa à criança for fonte de sofrimento e trauma, esta relação de segurança e apego não se forma.

“A realidade só pode ser investida se possibilitar alguma forma de prazer e satisfação. Inversamente, a tendência a desprender-se do outro, a aniquilá-lo na sua vida psíquica, manifesta-se quando a realidade se torna traumática para o sujeito, fonte de frustrações e ódio”.

KUHS, 2003, P. 1

Questões narcísicas podem ter origem nesse momento precoce da vida do sujeito, em que a criança retira sua libido do mundo exterior como modo de lidar com uma realidade desagradável e fonte de sofrimento.

Ou seja, a persistência de uma Personalidade Narcísica na vida adulta está fundamentada nesta impossibilidade, em idade precoce, de aprender a amar o mundo e os “outros”.

 

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Como é o sujeito de Personalidade Narcísica?

O narcísico costuma ser alguém que se vê, ainda que superficialmente, de forma grandiosa e admirável. Tem uma sensação de que é único, inigualável em tudo o que faz, e espera que o mundo lhe trate de forma especial.

Vê muitos defeitos em quem o cerca, mas raramente em si.

Sente que a maioria das pessoas não compreendem e não reconhecem suas qualidades. Apenas pessoas tão especiais como ele são capazes de lhe avaliar (no fundo, o narcísico tem muito medo de que a avaliação dos outros a respeito dele seja negativa, e por isso tende a desvalorizá-los. Ao mesmo tempo que busca que o reconheçam, apreciem e valorizem, sua autoestima é frágil).

Por conta dessa característica, tem dificuldade em manter relações estáveis. Suas fantasias de grandiosidade e seu constante esforço em ser o centro das atenções pode repelir as pessoas que convivem com ele.

Relacionamentos também são dificultados por sua falta de empatia. Os sentimentos e desejos do outro quase nunca são considerados.

Personagens famosos de Personalidade Narcísica

Populercartoon.blogspot

Joffrey Baratheon (“Game of Thrones”)

Johnny Bravo (Desenho animado)

Pepé Le Pew (Desenho animado)

CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO

Uma manifestação extremada da Personalidade Narcísica pode ser encontrada no chamado “Transtorno da Personalidade Narcisista”, categorizado pelo DSM-IV.

Para se diagnosticado (que deve ser feito apenas por profissionais habilitados), o paciente deve demonstrar 5 (cinco) ou mais dos sintomas abaixo:

 1. Noção exagerada de importância pessoal não baseada na realidade.

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Atenção: alguns narcísicos podem, publicamente, demonstrar sinais de grande humildade, e até timidez. O convívio mais próximo, porém, pode acabar por revelar a característica.

2. Preocupação com fantasias de sucesso, riqueza, poder, beleza e amor acima do normal.

O mundo “normal” parece nunca ser o bastante para o sujeito narcísico. Essa preocupação com a fantasia impede a personalidade narcisista de levar uma vida real e estável.

3. Convicção de que é um indivíduo especial e único, e só pode ser comprometido com ou compreendido por pessoas especiais.

4. Intensa necessidade de admiração.

5. Sentimento de merecimento.

6. Tendência a explorar os outros sem sentir culpa ou remorso.

Ligada ao sentimento de merecimento.

7. Ausência de empatia significativa.

Para o narcisista, sua dor é sempre a mais importante; seu ponto de vista, sempre o verdadeiro.

8. Tendência a ser invejoso ou se imaginar alvo da inveja dos outros.

9. Arrogância.

Manejo clínico

Pelo que expusemos até agora, resta claro perceber que o narcisista não é alguém que facilmente apareça nos consultórios de psicologia. Afinal, em sua aparente autossuficiência, ele não precisa de ajuda.

Contudo, como bem dissemos, trata-se de um aspecto meramente aparente.

Em si, o narcisista é um sujeito frágil e carente. Esta é uma brecha que pode levá-lo à psicoterapia.

Neste caso, é comum que transforme uma boa parte das sessões numa espécie de encenação, onde repetirá as tão conhecidas características de seu modo ser, e tentará convencer o terapeuta de sua grandiosidade e sucesso.

Para buscar a adesão do terapeuta, o paciente narcísico pode fazer uso de elogios e comparações (ora, o terapeuta é alguém estudado, intelectual, pode ser visto como alguém cujo estatuto se assemelha ao dele).

Alguns terapeutas mais jovens podem ser traídos por sua própria vaidade. Outros, podem se perguntar o que aquele paciente faz ali, se parece estar tudo bem em sua vida.

Pode ocorrer também ao terapeuta um sentimento de raiva em relação ao paciente, por sua arrogância, uma provável repetição do que outras pessoas já sentiram ou sentem em relação a ele.

É importante que o terapeuta esteja atento a estas possibilidades como portas para a compreensão do paciente, sem deixar-se envolver ou paralisar por elas, sob pena de inviabilizar o processo.

Tudo que um narcisista mais quer é alguém empático à sua frente…

* FUKS, C. Transtornos narcísicos: considerações sobre a violência. Estados gerais da psicanálise: segundo encontro mundial. Rio de Janeiro, Brasil, 2003.

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