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A polêmica sessão de hipnose de Pyong no BBB

Na madrugada do último dia 03, o hipnólogo, youtuber e atual participante do BBB Pyong Lee realizou uma sessão de hipnose com alguns moradores da casa.

A iniciativa incomodou algumas pessoas, que acharam o ato, no mínimo, arriscado. Nas críticas, alegava-se desde o perigo da exposição desnecessária dos participantes até possíveis danos à sua saúde mental.

O portal UOL publicou dois artigos sobre o fato.

No primeiro, publicado dia 03, o texto do articulista Daniel Palomares se fundamentava nas ponderações de dois especialistas na mente humana: Christian Dunker e Yuri Busin.

Para Busin, fica claro: Pyong errou feio. O psicólogo afirma, por exemplo, que “esse tipo de técnica precisa ser feita em um ambiente totalmente controlado”, e, portanto, não é adequada à situação do reality show.  Diz, ainda, que “A hipnose pode mexer em coisas adormecidas, reverberar de maneira negativa”.

Dunker é menos enfático. Para o psicanalista e professor da USP, o maior problema está na questão da autoridade envolvida na hipnose: “Não seria legal que ele continuasse com as sessões de hipnose na casa porque seria uma forma de manipulação”. Ele lembra que, em termos de dano à saúde mental, o próprio experimento BBB é potencialmente mais nocivo do que a hipnose.

Chama a atenção o fato de que os especialistas chamados a opinar são estudiosos da mente humana, mas, aparentemente, não da hipnose (procurei na formação e experiência de ambos, e não encontrei qualquer referência à hipnose).

Provavelmente por isso, algumas de suas colocações involuntariamente reproduzem alguns antigos preconceitos e mal entendidos em relação à prática.

No segundo artigo, de 04 de março, assinado por Luiza Pollo, a chamada adverte: “Hipnose é aceita como terapia; o que estraga sua fama é o entretenimento”. Curiosamente, porém, o texto, que desta vez conta com o auxílio técnico de uma neurocientista e hipnoterapeuta e do próprio presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose, me pareceu desmentir a manchete. Fiquei com a impressão de que a jornalista quis dizer algo à revelia dos especialistas…

Mas, enfim. Como esse assunto vem à baila com alguma frequência, e está nos holofotes desde que Pyong Lee iniciou sua jornada no BBB, gostaria de tecer algumas reflexões a respeito de conceitos que cercam a hipnose.

SOBRE A QUESTÃO DA AUTORIDADE

É comum que pessoas sem familiaridade com a hipnose creditem à autoridade um papel muito importante no processo.

Mais que isso, é frequente encontrar quem acredite que a hipnose se baseia numa espécie de “batalha entre mentes”, como se, durante a hipnose, a mente do hipnotista sobrepujasse a mente do hipnotizado e ocupasse, temporariamente, seu lugar.

Essa compreensão tem duas origens legítimas: uma, bastante antiga, que remonta ao final do século XIX, quando hipnotistas utilizavam palavras de ordem, gestual e palavreado que, de fato, incentivava a percepção de sua autoridade. O motivo para isso era muito mais conferir teatralidade ao espetáculo, além de reforçar junto ao público os “poderes” do hipnotista (que ganhava com isso). Daí, muitos espectadores acreditarem que era a autoridade a responsável pela hipnose.

A segunda origem do mal entendido está na suposta “grandiosidade” dos eventos que ocorrem, ainda hoje, em demonstrações de hipnose. Sob a orientação do hipnotista, pessoas hipnotizadas esquecem o próprio nome, têm partes de seus corpos paralisadas, enxergam ídolos em pessoas de seu convívio etc. (Pyong utilizou algumas dessas rotinas em sua sessão no BBB).

Para um leigo, me parece natural que isso tudo seja mesmo incrível, mágico, e leve a crer que o hipnotista deve possuir algum dom ou conhecimento especial que domina a mente do hipnotizado.

No entanto, não é isso que define a hipnose.

Em primeiro lugar, a hipnose é sempre um convite. Se o sujeito não quiser ou não estiver disposto, nada acontece. Para quem só conhece a hipnose de shows e apresentações midiáticas, talvez seja difícil acreditar nisso. Afinal, nessas ocasiões, a hipnose funciona sempre.

O que as pessoas não sabem é que, nessas apresentações, o hipnotista realiza, previamente (muitas vezes, até mesmo antes do show/programa começar), testes que lhe mostram quais são as pessoas que, naquele momento, estão mais suscetíveis às induções hipnóticas.

Quando começa a apresentação, apenas essas pessoas são chamadas a participar.

Tentar hipnotizar uma pessoa qualquer NEM SEMPRE FUNCIONA! Algumas pessoas conseguem se envolver minimamente, a ponto de produzir efeitos simples (como colar as mãos, por exemplo), mas não chegam a efeitos mais vistosos (como esquecer o nome). Outras, nem chegam a esse envolvimento mínimo.

Se a questão da autoridade fosse a responsável pela indução hipnótica, seria natural se esperar que um mesmo hipnotista (com sua peculiar dose de autoridade) conseguisse levar todos os hipnotizados ao mesmo nível de concentração e, portanto, aos mesmos efeitos.

Aliás, acabo de tocar num ponto importante. O convite feito ao hipnotizado depende de duas coisas, basicamente: de sua concentração e de sua disposição em “brincar” com sua imaginação.

Claro que algum nível de autoridade está envolvido na hipnose. É importante que o hipnotizado sinta que o hipnotista “sabe o que está fazendo”. Mas isso também ocorre em outras relações, como professor-aluno, médico-paciente etc., e não me parece razoável que diferenciemos a hipnose baseados neste parâmetro.

SOBRE O SUPOSTO DANO PSICOLÓGICO

Como dito acima, existe uma “grandiosidade” nos eventos provocados em sujeitos sob hipnose, principalmente na chamada “hipnose de entretenimento”, realizada em shows e na mídia.

Para o público leigo, esses efeitos, digamos, bizarros (como comer uma cebola crua e achar que é uma maçã) dão a impressão de que a hipnose implica uma incursão profunda no psiquismo do hipnotizado, uma verdadeira invasão/distorção na mente do sujeito.

O estudo e a prática em hipnose, porém, nos permitem compreender que essa impressão não é verdadeira.

Por incrível que possa parecer aos “não iniciados”, ao contrário, estes efeitos envolvem mecanismos e caminhos (nervosos) relativamente simples, não estando diretamente relacionados a (nem mexendo com ou “perturbando”) outras experiências significativas da vida do sujeito.

Podemos dizer que o estado hipnótico, na medida em que propõe um rebaixamento (não anulação) do senso de realidade (crítica), PODE ser utilizado para acesso a conteúdos psíquicos mais profundos e significativos, mas hipnotistas de entretenimento costumam tomar cuidado para não enveredar por essas aberturas. A sessão de Pyong no reality show não fugiu a essa regra.

O uso da hipnose para fins terapêuticos envolve outras ferramentas, técnicas e rotinas (embora sua natureza seja essencialmente a mesma da hipnose de entretenimento). É a chamada hipnose clínica.

A esse respeito, falaremos em outra oportunidade.

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Psicólogo Rodrigo Giannangelo
CRP 06/56201-2

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