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VOCÊ SABE QUAL A SEMELHANÇA ENTRE O PSICOTERAPEUTA E O JARDINEIRO?

Quem já teve alguma experiência no cuidado de plantas, sabe: uma semente não cresce PORQUE alguém cuidou dela.

Uma semente já tem dentro de si a tendência a tornar-se planta.

Ao cuidador, resta fornecer as condições para que essa força interna se manifeste em sua plenitude, o que implica controlar a quantidade de água, terra, minerais, sol e vento no entorno.

Além dessa disposição inerente a crescer e se desenvolver, a semente/planta também tem algumas “habilidades especiais de defesa”.

Se as condições ambientais (água, terra, minerais, sol e vento) não são as ideais, a planta faz algo para tentar diminuir o prejuízo e continuar crescendo. Quando essas adaptações implicam mudanças no formato de partes do vegetal, dizemos que ocorreu um “tropismo”.

Fototropismo

Por exemplo, se colocarmos a planta dentro de uma caixa de papelão, tendo apenas uma pequena fresta para entrada da luz do sol, a planta moldará seu crescimento para aquela pequena janela. Entortará seu caule, suas folhas, e procurará a luz – um fototropismo (foto = luz).

Um observador que encontre essa planta tempos depois, já sem a caixa de papelão que a recobria, provavelmente estranhará seu formato. Não entenderá o motivo do caule sinuoso. Não imaginará que aquela forma intrigante fez parte do esforço daquele ser vivo para permanecer vivo em um ambiente hostil.

Uma interessante analogia entre a tendência ao crescimento dos vegetais e a vida humana foi feita pelo psicólogo norte-americano Carl Ransom Rogers (1902-1987), fundador da Abordagem Centrada na Pessoa, corrente da chamada Psicologia Humanista, no contexto pós Segunda Guerra.

Carl Rogers

Rogers acreditava que o desenvolvimento de potencialidades, enquanto inclinação intrínseca aos organismos, aplicava-se à forma como nós, humanos, lidamos com nossa existência. Em outras palavras, para ele, o pleno exercício de nossas capacidades de vida dependeria “apenas” de que se nos oferecessem as condições ambientais necessárias (a palavra “apenas” pede aspas porque, de fato, não quer exprimir que tal tarefa seja simples ou que sejam poucas as condições necessárias).

Desde o nascimento, no caso de nos depararmos com condições de vida não ideais (e/ou hostis), essa força inerente nos levaria a modificações internas que ajudariam a contornar tais obstáculos, de modo a manter-nos no caminho do desenvolvimento pessoal.

Assim como na analogia da planta privada da luz solar, que altera seu formato para se embrenhar pela única fresta disponível, qualquer eventual observador da história de vida de um sujeito humano seria capaz de verificar “tropismos”, ou seja, estruturas adaptativas de aspecto superficialmente incompreensível, mas coerentes com as dificuldades às quais aquele ser foi submetido.

Vejamos um exemplo. Um homem adulto é visto como exageradamente solícito e altruísta, ultrapassando até seus próprios limites para proporcionar bem-estar aos demais. Num primeiro momento, tal postura pode parecer sem sentido, uma vez que o resultado não é satisfatório para ele, mas apenas aos que o cercam. Ao analisar sua história de vida, porém, se descobre que este homem não teve uma experiência de amor incondicional de seus primeiros cuidadores, e aprendeu que prestar serviços era a maneira de agradá-los e conquistar sua atenção e cuidado.

Ou seja, o modo de ser inautêntico não é uma bizarrice existencial, mas um “tropismo” realizado em função de uma dada condição.

Na medida em que esta condição hoje não existe mais, a estratégia de agradar os outros a qualquer custo se mostra desatualizada e desnecessária.

Nesse sentido, o caminho para que este homem reencaminhe seu modo de ser numa direção mais autêntica, em psicoterapia, seria oferecer um ambiente favorável, não hostil, sem julgamentos, para que aquela tendência inerente ao crescimento se ponha em ação.

Desde a época dos estudos de graduação, admiro este “otimismo” humanista rogeriano, que coloca o paciente no centro da relação clínica, como um ser dotado de potencialidades, e não como um doente escravo de seus “instintos” / traumas etc.


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Psicólogo Msc. Rodrigo Giannangelo
CRP 06/56201-2

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