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Criatividade ‘fora da caixa’: Truques simples para ser mais criativo

CRIATIVIDADE

Provavelmente você já ouviu falar sobre a importância da criatividade no competitivo mercado de trabalho (“pensar fora da caixa”). Mas, você já viu alguém falando seriamente sobre como desenvolvê-la?

Em 1945, o psicólogo da Gestalt Karl Duncker criou um experimento para testar a criatividade das pessoas na solução de problemas: O Problema das Velas.

O teste consiste em fixar uma vela na parede de tal forma que, quando a vela estiver acesa, a cera não escorra para a mesa que está logo abaixo.

Para realizar essa tarefa, podem ser usados os seguintes materiais:

– A vela

– Uma caixa de fósforos

– Uma caixa de tachinhas (percevejos)

Tome alguns instantes e tente resolver mentalmente o problema da vela de Duncker.

Problema da vela de Duncker
Problema da vela de Duncker

Já tem uma resposta? Ok, vamos ver como você se saiu!

Em testes onde os participantes têm à disposição os materiais descritos acima, aparecem muitas soluções diferentes. Alguns tentam pregar a vela na parede, enquanto outros tentam derreter parte da cera e usá-la como cola para grudar a vela na parede (Spoiler: nenhum desses métodos funciona).

Problema da vela de Duncker
Solução para o Problema da vela de Duncker

A melhor solução é esvaziar a caixa de tachinhas e usar algumas delas para fixar a caixa na parede; colocar a vela na caixa e, em seguida, acendê-la.

Se você pensou na solução de Duncker: parabéns! Se não, fique tranquilo; você pode estar apenas sofrendo de Fixação Funcional.

fixação funcional
A fixação funcional estreita nossa percepção, dificultando a visão criativa

O QUE É FIXAÇÃO FUNCIONAL?

Fixação funcional é um viés cognitivo (entenda o que é um viés cognitivo AQUI) que limita nossa capacidade de perceber nas coisas utilidades além de sua função original e pretendida.

É um fenômeno comumente encontrado na psicologia da resolução de problemas que afeta a capacidade de inovar e ser criativo na solução de desafios. Quando a fixação funcional está em jogo, tendemos a interpretar de forma restrita o que é possível realizar com os recursos disponíveis para dar conta de um desafio específico. Ficamos “fixados” em nossas representações tradicionais das coisas, e ignoramos o potencial latente de utilizá-las de outras formas e com outras funções.

No desafio da vela, a “caixa” representava para você apenas “algo para conter as tachinhas”, e por isso não foi imediatamente percebida como um componente separado e funcional, disponível para resolver o problema.

Percebemos, no entanto, que a mesma “caixa” também poderia representar um “suporte”, adquirindo uma utilidade valiosa para superar o desafio. A razão pela qual há uma diferença entre essas duas percepções da “caixa” é que nossas representações são construídas por 3 elementos: significado subjetivo, memória e experiência – todos com seus limites, e propensos a vieses e distorções. 

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Você pode estar pensando que eu induzi fixação funcional com minhas instruções (e você estaria parcialmente correto).

Se, por exemplo, a tarefa fosse apresentada com as tachinhas empilhadas ao lado da caixa, em vez de dentro dela, ou descritas separadamente na lista de materiais (ou seja, “caixa de fósforos, caixa, tachinhas etc.”), muito mais pessoas alcançariam a solução (Glucksberg & Weisberg, 1966).

Isso nos leva ao cerne da fixação funcional quando se trata de criatividade, inovação e resolução de problemas:

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A FORMA COMO OS PROBLEMAS SÃO APRESENTADOS INFLUENCIA NOSSA CAPACIDADE DE RESOLVÊ-LOS 

VIÉS DE ESTÍMULO

Quando uma informação nos é transmitida, nossa memória semântica (parte da memória que armazena o que as coisas significam) é ativada e traz à tona as muitas associações que temos    sobre o que está sendo apresentado.

As soluções que chegam à nossa consciência podem ser limitadas pelas categorias de estímulos apresentados.

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ESTÍMULOS VISUAIS

Este processo parece ser particularmente pronunciado com estímulos visuais: quando problemas são apresentados com dicas visuais, esses estímulos fixam nosso pensamento e tornam nossas ideias menos originais. Basicamente, tendemos a imitar ou copiar os estímulos apresentados (Chrysikou & Weisberg, 2005).

Participantes que são apresentados a exemplos visuais tendem a aproximar suas ideias a esses exemplos, mesmo depois de realizarem uma tarefa distrativa, ou de serem explicitamente instruídos a evitar a reprodução das soluções de exemplo (Smith, Ward, & Schumacher, 1993; Ward, Patterson, & Sifonis, 2004).

Mesmo profissionais não estão isentos desses efeitos em suas áreas: um experimento descobriu que engenheiros mecânicos que viram exemplos visuais de soluções de desafios eram mais propensos a incorporar os elementos vistos em seus projetos – mesmo que esses elementos não fossem tecnicamente os mais adequados para resolver o problema – enquanto aqueles que só receberam o desafio por escrito não sofreram o mesmo problema (Jansson & Smith, 1991).

ESTÍMULOS VERBAIS

O oposto, no entanto, parece ocorrer no caso de estímulos verbais. Embora nossas associações semânticas ainda sejam ativadas, nosso pensamento se comporta de forma diferente: se fixa mais lentamente e permanece mais confuso.

Em um estudo que analisou o efeito desse tipo de estímulo no pensamento criativo, Chrysikou e colegas (2016) apresentaram aos participantes uma série de objetos familiares e pediram-lhes que criassem usos típicos, alternativos e incomuns para os objetos.

Eles apresentaram os objetos de 3 formas diferentes: (i) a imagem do objeto, (ii) a imagem do objeto + nome, ou (iii) apenas o nome do objeto (veja abaixo).

Os pesquisadores descobriram que, embora as pessoas não tivessem dificuldade em imaginar usos típicos e alternativos para os objetos, aquelas que foram apresentadas ao estímulo verbal (somente o nome) tendiam a gerar usos mais incomuns do que aqueles que viram o estímulo visual (a combinação imagem + nome ficou no meio).

O mais interessante é que o tipo de estímulo também levou a diferenças no tipo de cognição utilizada: quando estimulados visualmente, os participantes demonstraram prioritariamente o processamento “top-down” (de cima para baixo) em sua criação de ideias, e quando estimulados verbalmente os participantes demonstraram prioritariamente o processamento “bottom-up” (de baixo para cima).

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COMO REDUZIR A FIXAÇÃO FUNCIONAL E INCENTIVAR A CRIATIVIDADE

Quando aprendemos como o processamento de informações influencia nossa cognição, entendemos que o “pensar fora da caixa” depende de como a “caixa” é apresentada.

Como no Problema das Velas de Duncker, a apresentação dos estímulos pode influenciar nossa cognição e desencadear diferentes modos de processamento de informações, aumentando a fixação funcional e reduzindo nossa criatividade.

Mas, agora que estamos cientes desses mecanismos, há algo que podemos fazer para sermos mais criativos?

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“Pensar fora da caixa” depende de como a “caixa” é apresentada

Sim! Eis algumas dicas valiosas:

1. Cuidado com a forma como você usa a linguagem

Pode ser tentador articular problemas em termos concretos, mas a linguagem é, em si, um fator limitador: separa, categoriza e compartimenta – tudo muito útil para o trabalho analítico, mas inútil para o pensamento imaginativo. Quanto mais especificidade introduzimos na linguagem, mais fixação induzimos no pensamento.

Tente abstrair o problema. Remova qualquer indicação de solução da maneira como o desafio foi apresentado.

2. Limite os estímulos

À medida que a complexidade de estímulos cresce, também aumenta a força de nossas associações fixas e diminui nossa criatividade; quanto mais tipos de estímulos introduzimos no problema — imagens, exemplos etc. — mais provável que nosso pensamento se limite ao que é mostrado.

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Ou seja, quando você precisa ser criativo, quanto menos estímulos receber, melhor.

3. Invista no seu catálogo semântico

Nossa habilidade de criar e inventar vem de nossos conhecimentos e experiências. Conforme nos abrimos a novas ideias, leituras, áreas do conhecimento etc. — aumentamos a amplitude e a diversidade de associações em nossa memória semântica.

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Costuma ser mais fácil consumir coisas já alinhadas aos seus interesses e experiências, mas ficar nisso não vai desencadear novas maneiras de ver e pensar o mundo.

4. Analise tudo

Podemos desacoplar o atributo ‘função’ do atributo ‘forma’ e melhorar nossa criatividade.  McCaffrey (2012) mostra uma técnica altamente eficaz:

À medida que você decompõe as coisas em suas partes, faça-se duas perguntas:

– Posso subdividir ainda mais a parte atual? Se sim, faça isso.

– Minha descrição atual implica um uso? Se sim, crie uma descrição mais genérica envolvendo sua forma e material.

Por exemplo, inicialmente divido uma vela em suas partes: pavio e cera.

Como você analisaria uma vela?

A palavra “pavio” implica um uso: queimar e emitir luz e calor. Então descreva-o mais genericamente como uma sequência. Um pavio é uma “corda”, o que novamente implica um uso, por isso descrevo-o mais genericamente ainda: “fios fibrosos entrelaçados”.

Isso me traz à mente que eu poderia usar o pavio para fazer uma peruca para o meu hamster. Uma vez que “fios fibrosos entrelaçados” não implica um uso, eu posso parar de trabalhar em “pavio” e começar a trabalhar em “cera”.

Essa técnica retira, sistematicamente, todas as camadas de usos associados a um objeto e suas partes. Pessoas treinadas nesta técnica resolveram 67% mais problemas que apresentavam fixação funcional dentro do grupo controle (McCaffrey, 2012).

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A capacidade de ver as coisas para além de nossas representações é uma habilidade que exige maior consciência de nossa experiência subjetiva no mundo.

Quando nosso pensamento consegue abranger mais do que apenas nossa perspectiva singular, não é apenas nossa criatividade sai beneficiada.

Olhamos para coisas antigas de modo novo – nosso tempo e nosso trabalho, nossas relações, e até mesmo nós mesmos. Enxergamos o potencial latente que tudo tem para a transformação e para novas formas de funcionamento.


Referências

Chrysikou, E. G., Motyka, K., Nigro, C., Yang, S., & Thompson-Schill, S. (2016). Fixação funcional em tarefas de pensamento criativo depende da modalidade de estímulo. Psicologia da Estética, Criatividade e Artes, 10(4), 425-435.

Chrysikou, E. G., & Weisberg, R. W. (2005). Seguindo os passos errados:  Efeitos de fixação de exemplos pictóricos em uma tarefa de resolução de problemas de design. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 31(5), 1134-1148.

Duncker, K. (1945). Na resolução de problemas. Monografias Psicológicas, 58(5).

Glucksberg, S., & Weisberg,R. W. (1966). Comportamento verbal e resolução de problemas: Alguns efeitos da rotulagem em um problema de fixação funcional. Journal of Experimental Psychology, 71(5), 659-664.

Jansson, D. G., & Smith, S.M. (1991). Fixação de design.  Estudos de Design, 12, 3-11.

Smith, S.M., Ward, T.B., & Schumacher, J. S. (1993). Restringir efeitos de exemplos em uma tarefa de produção criativa. Memória e Cognição, 21(6), 837- 845.

Ward, T.B., Patterson, M. J., & Sifonis, C.M. (2004). O papel da especificidade e da abstração na geração de ideias criativas. Revista de Pesquisa da Criatividade, 16, 1-9.


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